Protocolo estratégico com ozônio, fotobiomodulação e ativos específicos — apresentado no Congresso Estetika (32ª edição)

Por que alguns tecidos deixam de responder aos estímulos regenerativos?

Com o passar dos anos e a exposição constante a agressões ambientais como poluição, radiação solar e estresse oxidativo, as células gradativamente perdem a capacidade de responder de forma eficiente aos estímulos de regeneração. É como se o “motor” biológico ficasse sobrecarregado e não conseguisse mais processar o sinal bioquímico de reparo. Quatro fenômenos fundamentais marcam esse estado, denominado cientificamente como senescência funcional:

 

  • Mitocôndrias disfuncionais: as mitocôndrias são as verdadeiras “usinas de energia” da célula. Quando apresentam disfunção, a síntese de ATP (trifosfato de adenosina, a molécula que fornece energia química para as reações celulares) sofre uma queda acentuada, resultando em menor aporte energético disponível para conduzir os processos de reparo tecidual.
  • Inflamação crônica: instala-se um estado inflamatório persistente e de baixo grau, caracterizado pela ativação contínua de citocinas (moléculas de sinalização celular) e do complexo proteico NF-κB (fator nuclear kappa B, um regulador central da resposta inflamatória).
  • ROS elevados: os níveis de ROS (espécies reativas de oxigênio, popularmente conhecidas como radicais livres) ultrapassam o limite fisiológico saudável, causando peroxidação lipídica em membranas celulares e danos ao material genético (DNA — ácido desoxirribonucleico).
  • Fibroblastos lentos: os fibroblastos (células especializadas na produção de sustentação tecidual) reduzem drasticamente a síntese de colágeno tipos I e III, comprometendo a integridade e a dinâmica da MEC (matriz extracelular, a estrutura tridimensional que sustenta a derme e a epiderme).

 

O resultado direto dessa cascata de alterações é um tecido biologicamente refratário, que não responde de forma satisfatória aos protocolos de tratamentos convencionais.

 

Homeostase redox: o equilíbrio que mantém a célula saudável

A homeostase redox representa o equilíbrio dinâmico e preciso entre a produção e a neutralização contínua das ROS (espécies reativas de oxigênio). Em concentrações fisiológicas e estritamente controladas, as ROS não atuam como agentes lesivos, mas sim como segundos mensageiros e sinais moleculares indispensáveis para eventos de proliferação celular, diferenciação e defesa do sistema imunológico.

 

O sistema de defesa antioxidante endógeno do organismo composto primordialmente por enzimas especializadas como SOD (superóxido dismutase), catalase, glutationa peroxidase e tiorredoxina é o responsável direto pela manutenção desse equilíbrio homeostático. O quadro patológico e degenerativo se instala quando a concentração de ROS ultrapassa a capacidade de tamponamento do sistema antioxidante, iniciando  cascatas de degradação que desestruturam progressivamente as camadas da derme e da epiderme.

 

NRF2: o maestro da defesa antioxidante

O NRF2 (fator nuclear eritroide 2 relacionado ao fator 2) atua como o principal modulador genômico da resposta antioxidante do organismo humano — podendo ser compreendido clinicamente como um verdadeiro “maestro” encarregado de reger toda a orquestra de defesa e sobrevivência celular.

 

Em condições basais, o NRF2 permanece inativo no citoplasma, retido pela proteína inibidora KEAP1 (proteína 1 associada à ECH do tipo Kelch). Quando a célula vivencia um estímulo de estresse oxidativo controlado, ocorrem modificações conformacionais na KEAP1, liberando o NRF2 para mover-se diretamente ao núcleo celular. No interior do núcleo, o NRF2 liga-se a sequências específicas de DNA e promove a transcrição massiva de enzimas antioxidantes vitais, incluindo SOD, catalase e glutationa, restabelecendo a homeostase.

 

Compreender e modular ativamente essa via biológica é o fator determinante que diferencia uma prática focada na simples aplicação de equipamentos de um protocolo clínico avançado, desenhado para reprogramar a biologia do reparo.

Hormese: a dose que cura

A hormese é um princípio biológico de adaptação: a exposição a estímulos em doses baixas ou moderadas provoca respostas benéficas, enquanto doses altas podem causar toxicidade e lesão celular. O mecanismo é semelhante ao do exercício físico: na intensidade adequada, ele fortalece e aumenta a musculatura; em excesso, pode provocar ruptura e dano aos tecidos.

 

Na prática terapêutica com ozônio e FBM (fotobiomodulação), o ajuste dos parâmetros e as definição das doses  estão relacionados integralmente com o sucesso clínico:

Ozônio: um estímulo controlado que ativa a defesa celular

Um aspecto do mecanismo de ação de extrema relevância clínica deve ser esclarecido: o ozônio terapêutico não atua como um agente antioxidante de forma direta. Ele funciona como um eustressor — um estímulo oxidativo transitório, controlado e benéfico — capaz de acionar a cascata hormética protetora das células. Essa via desenvolve-se através das seguintes etapas ordenadas:

  1. A molécula de O₃ (ozônio) entra em contato imediato com os ácidos graxos polinsaturados (lipídios) e com a água presente nos fluidos e tecidos biológicos.
  2. A reação produz mensageiros intermediários de curta duração, principalmente o H₂O₂ (peróxido de hidrogênio) e o 4-HNE (4-hidroxinonenal, derivado da peroxidação lipídica fisiológica).
  3. Esses mensageiros lipídicos atuam sobre sensores redox específicos localizados no interior do compartimento citoplasmático.
  4. A oxidação controlada de resíduos específicos de cisteína (aminoácidos) na proteína inibidora KEAP1 promove a liberação e a estabilização do NRF2.
  5. O NRF2 livre migra ao núcleo e acopla-se ao ARE (elemento de resposta antioxidante), iniciando a transcrição genética do arsenal enzimático protetor do organismo.

Principais benefícios biológicos do ozônio terapêutico

  • Microcirculação: eleva significativamente os níveis de 2,3-DPG (2,3-difosfoglicerato) nos eritrócitos (glóbulos vermelhos), deslocando a curva de saturação da hemoglobina e aumentando a liberação de O₂ (oxigênio) nos tecidos periféricos.
  • Oxigenação tecidual: melhora a perfusão microvascular local e otimiza a capacidade oxidativa das mitocôndrias.
  • Resposta antioxidante: aumenta a atividade da SOD, da catalase e do ciclo da glutationa por meio da ativação do NRF2.
  • Reparo tecidual: estimula diretamente a proliferação dos fibroblastos e a síntese organizada de colágeno dos tipos I e III.
  • Controle inflamatório: reduz a transcrição do NF-κB e, consequentemente, a secreção de citocinas pró-inflamatórias clássicas, como IL-1β (interleucina 1 beta), IL-6 (interleucina 6) e TNF-α (fator de necrose tumoral alfa).

Fotobiomodulação: a luz que ativa os mesmos caminhos de defesa

A FBM (fotobiomodulação) atua em sinergia com a ozonioterapia e também promove a ativação do NRF2. A diferença é que, enquanto a ozonioterapia utiliza um eustressor bioquímico, a FBM emprega energia fotônica para estimular cromóforos e fotoaceptores endógenos específicos:

  • Comprimento de onda de 660 nm (luz vermelha): atua sobre o fotoaceptor CCO (citocromo c oxidase, enzima essencial da cadeia respiratória mitocondrial). Esse estímulo aumenta a produção de ATP, favorece a liberação de NO (óxido nítrico) e gera ROS fisiológicos transitórios, promovendo a ativação nuclear do NRF2, a modulação da inflamação e a aceleração do reparo tecidual.
  • Comprimentos de onda de 450/470 nm (luz azul): atuam sobre fotoaceptores flavoproteicos e porfirinas endógenas, produzindo ROS em níveis sinalizadores. Esse processo ativa o NRF2, contribui para a homeostase redox dos tecidos e acrescenta uma importante ação bactericida e antimicrobiana superficial.

Nas mitocôndrias, a luz vermelha melhora a transferência de elétrons pela citocromo c oxidase. Ao promover a dissociação do óxido nítrico (NO) do centro catalítico binuclear da enzima, a irradiação libera o sítio ativo para a ligação do oxigênio molecular, restabelecendo o gradiente eletroquímico e a produção eficiente de energia celular.

 

 

Como complemento à abordagem clínica, a técnica ILIB (irradiação intravascular do sangue com laser, geralmente realizada por aplicação transcutânea sobre a artéria radial) amplia os efeitos locais para o organismo como um todo, melhorando as propriedades reológicas do sangue, o metabolismo celular global e a capacidade regenerativa do paciente.

A associação estratégica: ozônio + fotobiomodulação + ativos

Essa metodologia combina ações complementares: o ozônio prepara o tecido, melhorando a oxigenação, reduzindo microrganismos e controlando a inflamação inicial. Em seguida, a fotobiomodulação aumenta a produção de ATP, estimula a multiplicação celular e organiza as fibras de colágeno. Juntos, os dois recursos ativam a via NRF2.

 

A cosmetologia funcional completa o tratamento. Ativos escolhidos para uso profissional e no home care ajudam a proteger o tecido e a manter os resultados:

  • Ectoin®: protege as células contra o estresse oxidativo intenso e ajuda a preservar a barreira da pele;
  • Bel-Even®: equilibra a produção de cortisol na pele, reduz os efeitos do estresse crônico e favorece a produção de colágeno;
  • Neurofense®: reduz a neuroinflamação, a sensibilidade das fibras nervosas e o desconforto durante a recuperação;
  • Neutrazen®: ajuda a diminuir a inflamação e a vermelhidão, acelerando a recuperação da pele.

 

Enquanto o ozônio e a FBM ativam a regeneração, os ativos tópicos protegem as células, equilibram a pele e favorecem uma recuperação mais rápida, uniforme e segura.

Caso clínico: protocolo em paciente com Imunodeficiência Variável Comum

O caso clínico detalhado na apresentação da 32ª edição do Congresso Estetika demonstra a aplicabilidade prática e a segurança do protocolo diante de uma condição de alta complexidade clínica: paciente do sexo masculino, 53 anos, portadora de IVC (imunodeficiência variável comum), desordem genética primária do sistema imune que causa déficit na resposta imune celular e consequente prejuízo crônico nos mecanismos biológicos de cicatrização e reparo tecidual.

Protocolo clínico aplicado por sessão – Produtos utilizados Ellementti Dermocosméticos 

Etapa Procedimento e Parâmetros
1. Higienização Espuma composta por glicerina vegetal, Cell Detox, enzimas proteolíticas, Hidrovance e aveia coloidal.
2.Peeling superficial    Renovação  superficial com Active Zyme, Hibiscus e PHAs (polihidroxiácidos).
3. Ozonioterapia tópica Emissão de ozônio medicinal na concentração de 20 μg (microgramas).  Injeção intradérmica fracionados de 0,2 a 0,5 ml por ponto, utilizando agulha 32G de 4 mm
4. Fotobiomodulação Equipamento Vênus (MMOptics) — irradiação com emissão simultânea de luz vermelha e azul por 20 segundos por ponto (densidade energética entregue de 9 J de azul + 4 J de vermelho = 13 J totais), obrigatoriamente realizada após a etapa com ozônio.
5. Finalização Aplicação de complexo de ativos nutritivos e reestruturadores , selados com máscara protetora ultra-hidratante em dose única estéril 

Aplicação:


Evolução clínica:

22/06/2026
23/07/2026

Conclusão

O uso combinado de ozônio medicinal e fotobiomodulação vai além da associação de técnicas: constitui uma estratégia integrada de reprogramação celular. Ao ativar o NRF2, favorece a homeostase redox, a função mitocondrial e o reparo tecidual. Assim, oferece à estética avançada uma metodologia segura, reprodutível e baseada em evidências atuais.


Por Prof.ª Sandra Costa

 

  • Mais de 26 anos de experiência na área da Estética;
  • Pós-graduada em Cosmetologia e Estética Avançada;
  • Docente na Pós-Graduação em Estética e HOF (Harmonização Orofacial);
  • Consultora técnica e de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) da MMOptics.

 

 Referências

  1. Pizzino G, et al. Oxidative Stress: Harms and Benefits for Human Health. Oxid Med Cell Longev. 2017.
  2. Tigges J, et al. J Invest Dermatol. 2021.
  3. Cuadrado A, et al. Therapeutic targeting of the NRF2 and KEAP1 partnership. Nat Rev Drug Discov. 2019.
  4. Hayes JD, et al. NRF2 and KEAP1 mutations in cancer. Trends Biochem Sci. 2020.
  5. Elvis AM, Ekta JS. Ozone therapy: A clinical review. J Nat Sci Biol Med. 2011.
  6. Hernández A, et al. Ozone therapy in clinical practice. Front Med. 2021.
  7. Hamblin MR. Mechanisms and Mitochondrial Redox Signaling in Photobiomodulation. Photochem Photobiol. 2018.
  8. de Freitas LF, Hamblin MR. Proposed Mechanisms of Photobiomodulation. IEEE J Sel Top Quantum Electron. 2016.
  9. Hamblin MR. Photochem Photobiol. 2018. DOI: 10.1111/php.12864.
  10. Hamblin MR, Liebert A. Photobiomod Photomed Laser Surg. 2022. DOI: 10.1089/photob.2021.0119.

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